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Oficinas em Diamantina!!! Repressão e abuso de poder

Esses dois relatos foram produzidos por dois integrantes do coletivo radiola Livre/BH após oficina realizada em Diamantina durante festival de inverno da UFMG!!! Eles, graças a deus, expressam opiniões diferentes que devem se complementar!!!

A que participou, parabéns pela ação!!!

Primeiro o relato da Ciberdélica em riseup.net :

Triste relato unilateral – Diamantina 2007

Relato livre em primeira pessoa: vejo o mundo através dos olhos que
tenho. Eles mudam de cor, mas não de lugar; mudam de perspectiva, mas
isso requer tempo e novos olhos nos quais eles olhem e percebam um
desejo de olhar diferente, com novas cores e ângulos.

Olhando para as duas semanas em que estive de corpo presente em
Diamantina com a idéia, um pouco perdida entre outras idéias, de levar
a Radiola para os ares de lá, sinto uma inquietação e um incômodo que
me coçam muito atrás da cabeça; por mais que eu tente ser muito
otimista e positiva, para mim não foi nada satisfatória a participação
da Radiola nA Casa. Fomos precipitados, desorganizados, desarticulados
e avacalhados. Tá bom, muita coisa bonita rolou, e tenho ciência de
que muita coisa rolou sem que eu tivesse visto e sequer participado -
mas os colegas radioleiros que lá estavam podem confirmar que meus
pulmões não aguentaram soprar tantas idéias quanto meus corações
queriam e, infelizmente, na primeira semana eu pude estar bem menos
presente e bem mais doente do que pretendia. Parabenizo e valorizo
esses parceiros - Edson e Lucas, que levaram durante a primeira semana
a Oficina de Radionovela com as crianças e toda a desprogramação da
rádio durante o resto do dia - mas devo dizer: tirando isso, fizemos
muitas bobagens, que nos renderam uma rádio no ar durante 2 dias e
fora do ar durante 9.

Stalker chegou com o equipamento de transmissão na terça, dia 17, no
final da tarde. Me ligou na quarta, horário de almoço, para dizer que
estávamos no ar em 105,1. Comemorei e não questionei muito, pois não
estava presente no momento da escolha da frequência a ser usada - sim,
tínhamos duas opções! 104,1 e 105,1. Não sei como nem SE foi feita
essa escolha, mas devo dizer que nesse momento fizemos uma escolha
errada. Entramos no ar interferindo na única Rádio Comunitária da
cidade; tudo bem, depois descobrimos que de comunitária só tem a
fachada, pois tem dono, tem chefe, tem tendência, cobra grana de seus
programadores e chama a polícia pra fechar rádio pirata. Mas foi um
vacilo e, nem aí pra ele - por desleixo, não sei se por não lembrar
ou por não ligar - entramos numa frequência ocupada quando podíamos
ter entrado numa desocupada e, conseqüência, recebemos um indivíduo
bastante ignorante, com a polícia já a tiracolo, para literalmente
cortar a nossa onda.
Edson peitou a situação e mandou seu nome pro B.O, apesar de ter
conseguido conversar mais com a polícia do que com o cara da rádio
(Rogério?). Aí sim, mudamos a nossa frequência para 104,1 e deixamos
de interferir
eletromagneticamente lá, mas ele continuou reclamando. (Nota: as
outras interferências continuaram, simbólicas, políticas, culturais,
sociais, estávamos conquistando mais e mais programadores e ouvintes
com a nossa proposta aberta e livre). Reclamou, reclamou, chamou a
polícia de novo e a Radiola saiu do ar, de cabeça baixa, sem resposta,
com a antena entre as pernas, como se fosse mesmo um caso de polícia.
Nisso Stalker e Edson já haviam ido embora e, com um coletivo de duas
pessoas mais ou menos estimuladas decidimos não subir de novo, pois
quem ia segurar a onda na hora do pepino? Quem ia estar lá com certeza
pra com a cabeça conversar com a polícia (como fez o Edson) e com as
pernas correr com os equipamentos (QUE NÃO ERAM NOSSOS)? Éramos poucos
e, o mais importante, pouco dedicados. Lucas, pode chiar aí, mas não
tivemos peito mesmo não, estávamos ambos dedicados a outras coisas no
Festival e a Radiola não estava acima de tudo, entre o céu e a terra.
Se estivesse teríamos achado a
força e as soluções pra construir o essencial, que nos faltou desde o
começo e continua em falta: A CONVERSA. Você e Edson tentaram
conversar com o cara da rádio, mas ele não estava lá, então não
tentaram mais; não achar a pessoa é diferente de não receber resposta
e fomos omissos demais nisso aí, não conversamos com a rádio
comunitária em nenhum momento, nem antes nem depois da violência com
que invadimos a frequência deles e eles a nossa(simbolicamente)...
Também não conversamos entre nós para tomar decisões coletivamente em
consenso, uma das grandezas que a Radiola cultiva, tudo era decidido
às pressas, sem a presença de todos do coletivo (ainda que fossem 2 ou
3), sem comunicarmos
a quem não estava lá mas poderia ajudar (era difícil, mas não
impossível mandar um email pra lista e pedir ajuda). Enfim: o que
rolou de bom, e rolou muita coisa muito boa sim, da residência da
Radiola nA Casa, foi fruto das criações e dos corpos maravilhosos que
estavam por lá e ocuparam o nosso espaço e nossos microfones, mas nada
deve ao trabalho do nosso coletivo, que se mostrou fraco,
desarticulado e muito inexperiente, tão devagar que, com todo um
movimento (de rádios livres) em sua rede, não dignou-se sequer a
escrever um email falando a situação (e nem, do outro lado, a um
ínfimo telefonema perguntando como estávamos por lá...)

Lucas, espero que você tenha notícias legais sobre o debate - para o
qual também não nos dedicamos nem o mínimo - e acho que devemos
conversar bastante sobre essa experiência pra que a gente possa ir de
novo no ano que vem e realizar, de verdade, tudo o que pode acontecer
de bonito com uma rádio livre montada num espaço livre.

Vale muito dizer que a galera dA Casa foi maravilhosa e super
solidária com a Radiola, tomando o problema para si, não nos culpando
pela indisposição com que causamos e não resolvemos a treta e, claro,
ocupando e curtindo muito o tempo e o espaço em que estivemos ligados,
livres e falantes.

Diante disso tudo, que venham as impressões contrárias para
protestar a esses nãos que conto, dizer que sim ao nosso tempo lá,
dizer que foi bom enquanto durou e que durou, contar mais, fabular
também, dar as mãos ou as costas a essas minhas memórias míopes e com
pouco fôlego; podemos até falar ao vivo, reunião na Radiola, temos
programas de crianças para ouvir, algumas fotos para ver e muito o que
produzir, o semestre está aí e podemos sempre renovar tudo. Sai um
informativo dA Casa por agora e temos um espaço se produzirmos um
texto; pretendo fazê-lo e ele certamente passará aqui pela lista pra
quem quiser
mudar, mudar. Aliás, mudar é sempre, e sinto que não estamos
acompanhando a tempo as mudanças na Radiola, temos várias pessoas
novas na área e nem todos se conhecem, nem todos conhecem nossas
histórias e nossas futuras histórias.
Somos livres e nos reproduzimos sem controle, sim. Mas precisamos de
cuidado para não ficar dando "passos mais largos que as pernas podem
dar", porque o tombo pode nos custar, por exemplo, os equipamentos que
suamos tanto pra conquistar.

Cuidado é a palavra. Não o cuidado medo, segurança e prisão, mas o
cuidado semente, água e carinho, pra continuar bonita e viva a nossa
Radiola!

Foi enorme e não foi tudo, quem cansou ou não entendeu posso contar
tudo de novo em outra língua, mas editar eu nem pensei: memórias
soltas são mais sinceras.

beijos
Nara

agora o relato do irmao em riseup.net

Vou fazer meu relato que de triste não tem nada.
Edson e eu chegamos na Casa no domingo de manhã, meu objetivo era viver
ACasa, oferecer uma oficina de radio livre e radionovela, e vivenciar uma
rádio livre com as pessoas d´ACasa e de Diamantina.
Logo no domingo saímos para conhecer as rádios da cidade, a comunitária
estava fechada (FACHADA?),peguei o telefone para ligar na segunda.

Para quem fica n´ACasa uma coisa é certa, você não tem tempo para quase
nada.De segunda a sexta na primeira semana dava a oficina de manhã,
almoçava e ia fazer uma oficina do festival. De noite Edson e eu
cuidávamos do som na festa, ainda tinha o bar para cuidar. Era muita coisa
para fazer e algumas coisas foram esquecidas nesse caminho, como ligar
para o picareta da comunitária.

Em Diamantina, vimos na prática como funciona uma rádio livre. Vimos como
seu tempo de existência é curto, a polícia é incrível nessas horas, e como
é bom desobedecer às leis que nos encarceram.Não penso que a rádio livre
estar ligada é a única forma de trabalho para a Radiola. Mesmos nos dias
de rádio desligada o assunto rádio livre estava tocando a cabeça das
pessoas.No mínimo 2 programadores novos vão entrar para a Radiola. e Se
quisermos podemos utilizar o que aconteceu em Diamantina para discutir com
a galera da Federal, d´ACasa etc.

Durante uma transmissão houve o interesse de alguns moradores de
Diamantina de montar uma rádio. Quem sabe né?

Abaixo o relatório sobre a oficina de rádio livre e rádio novela.

A oficina

Para o primeiro dia era necessário conhecer e aproximar os participantes.
A faixa etária variou entre 12 e 23 anos. Isso foi um fator de
dificuldade, pois as atividades eram voltadas para duas faixas muito
distintas e, como fomos pegos de surpresa, a primeira hora de aula foi
confusa. Mas a montagem dos equipamentos da rádio nos fez ganhar os
rádio-atores. Atingimos os objetivos do primeiro encontro: conhecer os
participantes oficineiros e os equipamentos.

A partir do segundo dia, fizemos exercícios de impro, os participantes
contavam casos e improvisamos vocalmente algumas histórias.

O terceiro dia foi marcado pela estréia da rádio no ar. Fizemos a
transmissão ao vivo da oficina. Trabalhamos com a ambientação através dos
sons.

O plano era exercitar os recursos da rádio-novela para aplicá-los nas
histórias que já tinham um enredo certo. Infelizmente não foi possível,
tivemos que trocar a aula de sexta-feira sobre comunicação livre pela de
quinta que seria a montagem de um programa com jornal, música e
rádio-teatro.

O que nos fez trocar foi um acontecimento tenebroso. Fomos denunciados por
um dono da Rádio Comunitária. O homem chegou na maior falta de educação,
no meio de um ensaio do jornal ACasa fala. As crianças ficaram sem
entender, mas em nenhum momento pedimos que saíssem. Era importante que
ouvissem os absurdos que aquele senhor da comunicação dizia.

Era dono da rádio comunitária, a mesma que procuramos no domingo, mas que
estava fechada. Perguntamos aos moradores como era o presidente e todos
falavam coisas estranhas. Não queríamos ser preconceituosos e não demos
ouvidos, esperando que o contato fosse feito com cordialidade.

Ele avançou com um gravador, perguntando quem era o responsável. Todos
aqui são responsáveis, respondi. O que está acontecendo aqui? Estamos
realizando uma oficina de rádio livre. Vocês estão fazendo um trabalho
ilegal. Ele não ouviu mais nada. Ligou para o 190 e disse que ia mandar
que recolhessem os equipamentos.

Era uma aula prática de rádio livre, de como se defender, de novos meios
de rebelião para os novos meios de repressão. Continuamos discutindo até a
polícia chegar. A tensão aumentou, mas todos ficaram na frente da rádio
para defendê-la, não existia mais o EU. Existia um coletivo. Defendemo-nos
com a idéia de que a rádio era experimental de baixa freqüência e depois
nos apoiamos na Constituição. O Homem Comunitário alegou que estávamos
interferindo em sua rádio (mentira), não utilizamos nem de perto a mesma
freqüência.

Como muitas crianças estavam presentes, os soldados apenas nos deram uma
ocorrência. Ficou acordado que a rádio ficaria no ar apenas uma semana.

O Comunitário saiu esbravejando e nós comemoramos e xingamos de muitos
nomes aquele boçal. Ele já não estava lá.

Sentimos que era a hora mais certa para falar de legislação sobre
comunicação e fizemos um debate entre os rádio-atores. Foi o dia mais
intenso da oficina.

Na sexta-feira foi o encerramento. Começamos mais cedo e terminamos mais
tarde. Com tudo acertado, gravamos o jornal e a rádio-novela. Transmitimos
3 dias de oficina.

Os participantes ficaram eufóricos ao se ouvirem na gravação. A forma
horizontal de nos relacionar na oficina possibilitou que o resultado fosse
suficiente para todos. O ar estava aberto para o aprendizado e todos
trocaram conhecimentos e expuseram intuições. O ponto forte da oficina foi
excluir o professor e criar um ambiente para a experimentação, a
espontaneidade e a criatividade.

O Coletivo Radiola Livre foi para ACasa de Diamantina para aprender e
ensinar. Objetivo cumprido sem choradeira.

Abrazos do Irmão.