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Muda: Anos radiofônicos se passam. Mais de 15 anos no ar...

"Mudeira faz balanço sobre os ares que se respira na rádio Muda após mais de 15 anos de... do que? humm... melhor deixar ela falar...". Texto por Daniela (Prog. Prímula - Domingo 20-22h), retirado do CMI.

Pelo ar, a vida se manifesta na existência da discordância, do convencimento do outro, da unidade pela comunicação, e dos frutos da convivência coletiva.

Fazer rádio muda é difícil. È difícil lidar com opiniões radicalmente diferentes. É difícil não ter o recurso do voto- a palavra final, abstratamente representativa de uma falácia maioria. É difícil ter que recorrer ao convencimento e não ao consenso forçado. E ao mesmo tempo é difícil tomar a palavra. Não conceder a ninguém nossa própria capacidade de ação. Não delegar tarefas a alguém carismático o bastante que tome as rédeas de nosso próprio destino. É difícil lidar com o poder na sua manifestação mais instintiva - eu vencerei sobre o mais fraco. É difícil se fazer valorizado em um coletivo tão heterogêneo. É difícil criar das suas próprias idéias, dar vazão e participar de algo lindamente com todos.

E é tão bonito. Fazer valer o esforço de intermináveis horas de discussão. Ser firme em ouvir todas as opiniões. Experimentar a paciência nascida da convivência. Falar menos e ouvir mais. Falar mais e ouvir mais. Tirar uma ação de uma idéia. Criar um ponto em uma rede de comunicação. Conhecer e admirar algo no outro, algo que brota em sua mente, em seu corpo, em todas as vozes que congregram-se nesse projeto libertário. Não votar e escutar. Não recorrer a lei que desconhece o ser mas conhecer o ser que cria leis mutantes. Leis e prática se relacionam no curso do tempo, que muda. As regras mudam porque as pessoas mudam. O mundo muda. A Muda muda.

E é ao longo de todos esses anos que o coletivo dessa rádio mutante vem se mantendo e se mudando. Se no começo éramos um transmissor de baixa potência, experiências eletrônicas entre alguns e definições ainda incertas do que se queria com o rádio, hoje nos inserimos em um contexto amplo de relações além fronteiras com coletivos de mídia, rádios livres e luta social pelo mundo todo. As idéias correm soltas e os registros históricos serão sempre tardios para acompanhar a existências das coisas. Os últimos anos trazem e criam redes de comunicação mundiais. Espontâneas, rápidas, criativas e bastante comunicativas e não apenas transmissoras de mensagens, vem transformando o mundo e as características de relacionamento entre as pessoas, os grupos humanos, os centros e des-centros de poder. As fontes de vida urgem!

Na corrente do rio, fluxo constante de idéias e ações diferenciadas está o coletivo mudo. Mudo e surdo, falante comunicativo, sensível e tapado, interativo, dai-me ar!

Ar para ondas eletromagnéticas, para palavras e notas musicais! Uma nota que percorre milhares de quilômetros e volta respondendo. Rádios livres ao redor do planeta se comunicam em tempo real, retransmitindo-se e debatendo, cumprimentando-se e visitando seus companheiros radiofônicos que, existindo, deslegitimam a representatividade criada quase que abstratamente pelos Estados Nacionais. Na prática, fazemos rádio. E ainda há muito espaço no dial. Chega a ser tragi cômico quando nos acusam de derrubar aviões. A grande mídia é criativa nas suas invenções. As rádios livres são criativas na sua comunicação. A rádio muda é criativa e muda. Criação é mudança.

Se no começo éramos poucos, hoje somos muitos. Mais de uma centena no coletivo. E muitos encontros, oficinas de rádio, criações de estúdios pelo Brasil afora, disseminação técnica. E tudo isso com muita desorganização. E cabos no bolso. A idéia e a prática de um movimento de rádios livres ganharam força nos últimos anos, e se há alguns anos atrás éramos experiências eletrônicas de baixo alcance, hoje somos a dificuldade de um coletivo extenso, a paciência do diálogo que é obrigado a valorizar o outro, a experiência da projeção pelo país afora, a criação de redes de comunicação além fronteiras e a inserção em algo que está sempre a se tornar, a ser o potencial da diversidade - aprendizado e o ensino de se comunicar. Os mais de 15 anos de existência como rádio muda nos ensina a fazer valer os espaços próprios, que valorizados, configuram um espaço coletivo que depende de uma vontade de fazer. Essa vontade temos que buscar na motivação real. É sacudir a poeira e fazer valer suas idéias. Questionadas e refletidas, são reavaliadas. O convencimento criado nos últimos anos nos deixa o recurso da valorização de todas as opiniões. O exagero do poder tem espaço. Mas a estrutura de organização livre que permite o poder, mina o poder no mesmo instante. A liberdade permite o combate a desigualdade de tomada de decisão. Mudamos e mantemos nossa unidade na comunicação. Nas ondas do ar, nas ondas das falas e nas pontas das músicas, a vida borbulha na rádio muda. E assim a morte, porque sem ela, não pode haver o nascimento do novo, a renovação e o respirar de novos ares. Novos ares radiofônicos. O novo que vem do velho, o velho que cria o novo.

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