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[radiolivre] as livres e as outras

[radiolivre] as livres e as outras (Thiago Novaes) - [Lista de discussão do radiolivre.org]

Livre Definição.

Mais ou menos, alguns de nós, talvez muitos, achamos que *rádio livre* quer dizer, antes de mais nada, rádio que *não pede, nem quer* autorização do Estado para funcionar. Essa autorização viria, e vem, para a *rádio escrava, *sob o termo de *concessão*. Não queremos isso, em razão ¿ por exemplo ¿ das suspeitas de que o atual sistema de concessões seria, por sua própria natureza, inteiramente corrupto e corruptor. Entre os indícios dessa dura realidade, temos o domínio da rádiodifusão por um pequeno número de redes nacionais, com destaque para a famigerada Rede Globo.

Um detalhe: a *liberdade de expressão* está expressa e enfaticamente gravada na Constituição do Brasil. Nós defendemos a liberdade de expressão, denunciamos o sistema de concessões (de rádios, TV e tudo mais não faz falta não) como um instrumento do Estado e do Grande Capital para dominar, controlar, podar a liberdade da população Um modo de tirar da população até a vontade de se expressar livremente e substituí-la pela triste repetição do que se ouve e vê nas rádios e TVs.

Defendemos, denunciamos e resistimos, pela liberdade de expressão, que, assim, está também embutida no título de que nos orgulhamos: *rádio livre*. *Nem legal, nem ilegal, livre* (e gostosa).

A propriedade de grande número de emissoras (quase todas vinculadas a grandes redes nacionais) estaria nas mãos de empresários, políticos, líderes religiosos ou similares, beneficiários das *concessões* feitas pelos sempre honestos governos, em nome do grande defensor dos direitos humanos e da moral e do Estado. Esta hipótese de sistema inteiramente corrupto e corruptor poderia explicar o teor da imensa maioria das emissões radiofônicas (e de TV) que assolam o país.

Essas aí são as *rádios comerciais*. O adjetivo deriva do objetivo destas rádios: ganhar muita grana com propaganda, aberta ou camuflada e sempre garantida pelo teor de suas transmissões. Elas passam o dia todo fazendo lavagem cerebral, informando os queridos ouvintes sobre a violência dos pobres, dos bandidos (entre os quais os piratas) e das facções criminosas (elas não seriam facções criminosas!). Da mesma forma, estas rádios glorificam o trabalho do Grande Capital e destacam os impostos que ele (teoricamente) recolheria aos cofres do Estado (e cujo destino abster-nos-emos de comentar aqui). Para muitos de nós, este sistema deveria ser simplesmente abolido.

Por seu reduzido raio de alcance e pela recusa em fazer propaganda, algumas pessoas pensam numa semelhança entre *rádio livre* e *rádio comunitária*. Duas diferenças existem que são mais do que fundamentais. A primeira já foi mencionada: a necessidade de *concessão*. Para ser uma *rádio comunitária*, tal como ela é definida em lei, é preciso pedir uma *concessão* ao Estado. E, assim, entrar para o sistema radiofônico anti-social e tornar-se uma rádio *escrava de verdade*. Na verdade, as *rádios comerciais -*especialmente, as rádios líderes das grandes redes de comunicação - são *escravas de mentirinha*, porque elas comandam também o Estado e, consequentemente, o sistema de concessões.

Para completar, certo número de atuais *rádios comunitárias* são *rádios comunitárias de mentirinha*, pois foram praticamente criadas e são praticamente mantidas por grandes empresas laicas ou religiosas. Sem falar naquelas indiretamente vinculadas aos governos. Não faz muito tempo, chegou-se ao ponto de um ministro anunciar o pedido de uma reserva de concessões para rádios comunitárias que se comprometessem a apoiar o tristemente famoso programa governamental "Fome Zero".

Uma outra coisa importante distingue radicalmente a *rádio livre* da *rádio comunitária*. Simplesmente para pedir a *concessão* de uma faixa de transmissão, é necessário organizar-se sob a forma de *empresa: *uma * empresa* que não visaria lucro, mas uma *empresa*, com responsáveis, diretorias etc. e tal e tal e coisa. Isso significa detonar o sistema de tomada de decisões que prevalece em muitas rádios como a Muda e, particularmente, na Muda. Não temos diretores, nem diretoria, nem coordenação, nem coordenadores, nada assim. Funcionamos na mais perfeita desordem, na bagunça total, há mais de dez anos. E funcionamos o dia quase todo, com mais de uma centena de programadoras e desprogramadores. E essa desordem é, para muitos de nós, característica essencial: *rádio livre*organizada não existe.

Como algumas *rádios livres* são tocadas basicamente por estudantes universitários, alguns distraídos confundem-nas com *rádios universitárias*. Nada a ver. Podemos até gostar de algumas rádios universitárias, na medida em que, nos antigamentes pelo menos, elas eram até meio chiques. Nos dias de hoje, as direções das universidades estão comprometidas até a alma com as grandes facções internacionais, como Microsoft, Monsanto, e com o Exército e as polícias. Provavelmente, em breve, deveremos chamá-las de *rádios desuniversitárias*.

Além disso, o império da lei e da ordem e, particularmente, da ordem empresarial é total, pois a *rádio desuniversitária* faz parte do sistema de concessões e é um departamento da *desuniversidade*. Seu *diretor* obedece ao reitor.

Às vezes, a rádio livre é chamada de *rádio pirata*. Geralmente isso acontece com objetivos de criar uma imagem negativa da rádio livre. Para alguns de nós, talvez muitos de nós, o nome é um elogio. Os velhos piratas combatiam, nos mares, os impérios da época (Inglaterra, França, Holanda e companhia), atacando as embarcações em que a turma destes impérios levava as mercadorias e as mulheres que roubavam em quase todos os lugares do mundo.

Nos recentementes, o termo surgiu, no mundo radiofônico, com a instalação de estúdios de transmissão em barcos que, navegando no limite das águas territoriais de um determinado país (por exemplo, a Inglaterra), combatiam o monopólio das transmissões de rádio por uma única emissora, controlada diretamente pelo Estado.

É verdade que a maioria das tais *rádios piratas* lutavam pelo direito de serem *rádios comerciais* e buscavam patrocínio em troca de propaganda. Mas, de qualquer maneira, mesmo estas *rádios piratas* ficaram como exemplos de resistência e, nesse sentido, não desonraram totalmente a *pirataria*.

E tem também os atuais piratas dos CDs, dos DVDs, perfumes, jeans, tennis, bonés, canetas e similares. Alguns de nós têm muita simpatia por estes piratas também.

Para terminar, o que talvez seja o principal. A rádio é *livre* porque ela * é* das pessoas que a fazem. E ela é feita *para* as pessoas que a fazem. Se você quiser ouvir a Muda, pode, mas saiba que muitos de nós falamos para nós mesmos e para os mudeiros de outras rádios livres espalhadas por este mundão. Falamos para os mudeiros de Barão, para os de Sampa, para os de Helsinque, Ulan Bator. Se você é um desses mudeiros e ainda não tem sua Muda, fale conosco, telefone, mande uma mensagem eletrônica, dê um grito.

Texto do prof sergio silva, sociologia ifch - unicamp - mudeiro.