Relato do 14º Encuentro de la Comunicación Comunitária, Alternativa y Popular na Argentina

Relato do 14º Encuentro de la Comunicación Comunitária, Alternativa y Popular na Argentina

O 14º encontro de comunicação comunitária, alternativa e popular começou no dia 18 de agosto em um fim de tarde de tempo aberto na cidade de Rosário, província de Santa Fé. O evento foi organizado pela RNMA – Red Nacional de Medios Alternativos, uma organização argentina que reivindica uma outra comunicaçãoi e se articula com diversos movimentos sociais e temas urgentes da sociedade argentina (e porque não latinoamericana)[1]. São mulheres, homens, jovens, jornalistas, estudantes e demais profissionais e interessados em uma comunicação dialógica que se organizam nas mais diferenciadas frentes de comunicação – agências de notícias, jornais “callejeros” (de rua), rádios comunitárias e populares, coletivos audiovisuais e outras manifestações culturais e sociais.

O painel de abertura, Comunicação, Educação Popular e Academia, repensando nossas práticas, contou com a presença da professora da UNR (Universidade Nacional de Rosário) e conselheira da cidade Celeste Lepratti, além de Adrián Abonizio, que é músico e comunicador popular, Ivan Torres Leal, da RNMA, e com a coordenação de Luis Guzmán, da Rádio Popular Che Guevara, organização anfitriã do encontro.

Celeste, abrindo a “charla”, fez um rápido apanhado histórico de como surgiram os primeiros grupos que reivindicavam uma outra comunicação. Eles tiveram como principal mote um experimentalismo comunicacional. Ela conta que “hacer radio, periódico o otra comunicación en las calles, denunciando las moléstias y tratando de articular las organizaciones, fue una tarea muy difícil. Muchas compañeras y compañeros querían desistir.” Ela relata que a principal dificuldade era a falta de apoio de muitos movimentos sociais e sindicais às iniciativas da comunicação alternativa e popular. Em sua análise do passado e da atualidade, a professora avalia que ainda há muito que caminhar, mas que já "podemos llegar a un momento en que podemos decir lo que queremos", ao invés de estar somente atrás das trincheiras da comunicação. Ela finalizou traduzindo a problemática da comunicação como um sonho: a comunicação precisa transmitir a esperança.

Adrian Abonizio, seguindo também uma linha de resgatar as mudanças percebidas na história, principalmente na cidade de Rosário, analisa como o contexto de desaparecimento de pessoas na Argentina e na cidade criou um sentimento de enorme revolta. “Nacieran músicos con este sentimiento, con esa voluntad de através de la letra y la sonoridad hacer otra educación con los niños”. Para ele a música se traduz em duas maneiras de comunicar: a letra e a sonoridade, que possuem alcances distintos e que combinadas potencializam os sentidos que queremos dar.

Fazendo uma crítica à música argentina atual, suas considerações finais caíram como uma luva para elucidar a sociedade colonial que ainda vivenciamos. “La sociedad está colonizada por la idea de triunfo, principalmente por la manera que la comunicación hoy se realiza”.

Ivan Torres Leal da RNMA fez uma breve, no entanto profunda, exposição sobre a maneira em que a mídia monopolista mundial e latinoamericana vem acompanhando os movimentos sociais, e sentenciou: na maioria das vezes ela cria, sem o movimento social perceber, uma personalidade que fala pelo movimento. O caso dos zapatistas é muito claro. E o que mais impressiona é como o movimento chiapaneco lidou com isso: a estratégia de “matar” o subcomandante Marcos e descentralizar as vozes com as rádios populares zapatistas, e assim fomentar o surgimento de mais lideranças e de demandas mais descentralizadas, fez com que muitas outras vozes se elevassem e que as tentativas da grande mídia de personificar o movimento falhassem. Em suas conclusões, Ivan apontou que “a comunicação popular esta fazendo educação popular. A RNMA é um exemplo.”

O debate inicial também abordou experiências no campo da comunicação intercultural em rede na região do chaco argentino. Apontou-se as possibilidades da universidade pública acompanhar, mediar e apoiar ações conjuntas ao movimento indígena na região. Entende-se que o diálogo essencial entre ciência e saber popular é fruto de uma costura feita com solidariedade nas lutas dos povos por sua terra e seus territórios.

Ao final da noite, nos arredores de Rosário, conhecemos a Casa de la Memória e a Rádio Popular Che Guevara, que opera nas frequências moduladas rosarinas. Houve um pequeno debate entre as organizações presentes, suas nacionalidades, suas ações e as alianças internacionalistas que estavam sendo consolidadas. O coletivo brasileiro Saravá foi mencionado com muita estima pelos hermanos e hermanas. Companheir@s da Colômbia e do Uruguai estavam presentes.

No dia seguinte aconteceram as oficinas: relatos paralelos de experiências práticas com “mão na massa”. Entre elas estavam as de rádio e software livre, jornalismo crítico, produção artesanal de livros, produção audiovisual e outras. Conhecendo um pouquinho mais como essa rede se organiza e se multiplica organicamente, é visível como ela é construída majoritariamente por pessoas de fora do ‘jornalismo profissional’. São pessoas e coletivos inseridos em lutas sociais que por meio da comunicação conseguem reverberar suas vozes e urgências.

Infelizmente não conseguimos ficar o encontro todo, mas as pontes estão sendo construídas. A comunicação popular não pode ficar sujeita às fronteiras do Estado-nação e às diferenças da língua irmã. Olhar para os lados nos interessa mais neste momento. Compartilhar as lutas tão próximas e debater táticas se faz tarefa primordial na construção de um diálogo propositivo para quem busca superar as situações de isolamento. O horizonte já esta desenhado: elaborar e organizar com quem está disposto. A cabeça pensa onde os pés pisam. Mas os pés podem caminhar e correr em territórios onde a luta se diz “lucha”.

Relato feito por
André de Souza Fedel - Geógrafo e Educador Popular
Jociele Luz - Estudante Kaingang do Curso Interdisciplinar de Educação no Campo - UFFS

Revisado por
Michele Torinelli - Comunicadora Popular

[1] A Red Nacional de Medios Alternativos é um espaço amplo de articulação, debate e ação de companheiros e companheiras em forma individual e/ou coletiva no campo popular. Ela desenvolve comunicação alternativa, comunitária e popular. Seu entendimento é para além da comunicação enquanto ferramenta e sim como um processo de construção coletiva. A concepção que noss@s vizinh@s possuem é que a comunicação é um direito popular e legítimo. A RNMA surge em 2004 na província de Neuquén com o objetvio de criar um espaço que fosse parte do processo de luta dos setores populares, anticapitalistas, antiburocratas e antipatriacais. A RNMA não trabalha só em meios de comunicação, sua energia é também para a criação, gestão (autogestionária, inclusive) e multiplicação da comunicação popular. Desde 2008 a RNMA organiza campanhas junto ao campo popular, pautando sempre a urgência de democratizar diretamente a comunicação e assim multiplicar as vozes que compõem a sociedade argentina. Podemos dizer que a marca desta rede são as rádios abertas nas praças, ruas e espaços públicos nas cidades onde ela se organiza.