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A insurgência de Flora Gonçalves entre as rádios livres e as antropologias - uma entrevista dialógica

Entre 23 de novembro de 2013 e 19 de março de 2014 fizemos uma entrevista dialógica Guilherme Gitahy de Figueiredo (Guile), doutorando no Museu Nacional da UFRJ com a pesquisa "Inventando autonomias no Médio Solimões: histórias de vidas, rizomas e rádios livres", e Flora Rodrigues Gonçalves, autora da dissertação de mestrado "Rádios Livres: As controvérsias ainda pairam no ar? Uma análise antropológica das novas relações sociais de radiodifusão", defendida na UFMG em 2010.

Temos em comum a participação por anos em rádios livres e a pesquisa das nossas próprias vivências. Ela na Radiola, em Belo Horizonte (MG), e eu na rádio Muda de Campinas (SP) e depois nas rádios Pulga, no Rio de Janeiro, e Xibé de Tefé (AM). Porém, se me considero um pesquisador engajado, Flora afirmou ser uma insurgente. Ela silenciou quando perguntei o que queria dizer com isso. Elaborar uma definição seria, talvez, trair a sua insurgência. Entendi desta entrevista que a insurgência de Flora é a sua entrega aos fluxos de vida, não se deixando domesticar pelos formalismos da pesquisa científica, militância ou mesmo de uma entrevista.

Esta tornou-se uma conversa bastante informal, um diálogo entre pessoas que apenas começam a se conhecer sobre suas experiências, delícias e angústias com rádios livres e pesquisas antropológicas. Fiz perguntas, mas também comentários. Flora também perguntou, comentou e não se intimidou quando sua resposta tinha que ser o silêncio. Conversamos até de coisas que tivemos que editar para não matar o leitor de tédio. Os nomes de voluntários/as da Rádio Muda foram trocados devido à repressão. Boa leitura!

23/11/13 - Guile:

O que era o rádio em sua vida antes de começar a fazer rádio livre?

24/11/13 - Flora:

Antes de começar a fazer rádio, quer dizer, a viver a rádio, eu enxergava a radiodifusão, de uma maneira geral, um pouco sem graça e arbitrária. Eu nunca conseguia escutar o que eu gostava, a vanguarda paulistana. Os músicos independentes não pagam jabá… Quando eu ainda morava em Uberlândia, amava a Rádio Universitária de lá, da UFU. Apesar de nunca passar aquilo que eu gostava de ouvir, eu adorava ver que as músicas do cerrado (definição minha) tocavam lá. Eu vi que existia um outro formato de rádio, mas não entendia muito bem.

Depois que eu fui pra BH, conheci a Rádio Favela. Aí comecei a pensar que coisas aconteciam bem longe das rádios padronizadas e convencionais, e comecei a escutar só a Favela. Mas em termos musicais eu nunca me sentia contemplada, e muita gente me zoava falando que eu escutava rádio por militância, e não pela música. Mas isso foi morrendo, até que eu encontrei uma figura bastante emblemática que me chamou para a reunião da Radiola. Eu fiquei apaixonada não pela rádio, mas pelo coletivo. O coletivo foi o que me levou pra rádio, efetivamente.

Mas acho que me desvirtuei da pergunta. A minha vida antes de fazer rádio era uma coisa que não foi depois, óbvio. Eu, antes da rádio livre, não imaginava que minha vontade de subversão era tão grande.

25/11/13 - Guile:

Como eram suas relações de escuta com as rádios da UFU e Favela no seu dia a dia?

Você acha que elas tiveram alguma influência no modo como você iria viver a Radiola?

28/11/13 - Flora:

Na verdade minha relação sempre foi de ouvinte mesmo. Eu não tinha vontade de estar lá, de fazer rádio. Era muito passiva, nesse sentido. Acho que, em certa medida, a Favela teve influência no que eu fiz na Radiola muito mais no sentido de resistência. Hoje a Favela é uma rádio hummmmmm.... (vendida?!). Mas na época em que eles tinham que fazer os corres fugindo da ANATEL (…) e eu pensava nisso, uma rádio livre era praticamente a subversão do código técnico do Feenberg. Mas sei lá, acho que não sei responder as suas perguntas.

28/11/13 - Guile:

Como foi o seu envolvimento com a Radiola?

12/12/13 - Flora:

Meu envolvimento com a Radiola…

Bom, eu estava no corredor da FAFICH [UFMG], onde eu tinha aula, aí encontrei uma figura um tanto emblemática que me chamou pra participar das reuniões. Chama Neimar, essa figura. Ele falou que as reuniões aconteciam no CA da Comunicação e aí eu fui pra ver de qual que era. Apaixonei pela ideia, porque até então era só uma ideia. Gostava daquele coletivo de coisas e de pessoas. A dimensão do que era uma rádio ainda era muito infantil e bastante romântica.

Depois as reuniões passaram pro PCA (tem essa parte da dissertação), a compra dos equipos, etc, etc, as festas e reuniões. Eu fazia um programa, chamava Fritando a Couve. Era delicioso. Quer dizer, hoje já não sei se era delicioso. Na época era. Sei lá o que é delicioso também. É que não existia isso de refletir o que acontecia, acontecia e pronto, entendeu?

Ah que bosta, estou tendo o pior ano de todos.

O que é envolvimento, afinal?

A gente tinha uma piscina, ficou no gramado em frente à rádio. Era essas de plástico. A gente encheu de cerveja, uma vez.

E eu caí da antena uma vez, quando ela ainda não estava na caixa d'água. Caí em cima do Zé. Coitado.

13/12/13 - Guile:

Como era o programa Fritando a Couve?

14/12/13 - Flora:

Bom, o Fritando a Couve era feito umas duas vezes por semana, tipo terça e quinta. Eram eu e Zé. Geralmente a gente levava uns CDs, algumas coisas e improvisava na hora. Sempre tocava Cidadão Instigado, porque o Zé adora isso. Eu tocava de tudo, era bem sincronizado com meu estado de espírito. Geralmente passavam algumas pessoas por lá, então a gente deixava rolando e trocava uma ideia. Às vezes ia ao ar, às vezes não. Quando eu fui morar em Montevidéu o programa acabou e o Zé migrou pra outro programa.

15/12/13 - Guile:

Achei o nome Fritando a Couve bem legal. Tinha algum significado especial?

15/12/13 - Flora:

Tem.

O Zé, quer dizer, o apelido do Zé era Zé das Couves. Ainda é, eu acho. Eu só chamo de Zé mes.

E eu, muito calma e sensata pra não dizer o contrário, achei muito sugestivo a ideia de fritá-lo, afinal, o programa era uma fritação mesmo. Teve um dia que a gente tava muito cansado, sei lá, meio triste e sem sentido, e resolvemos fazer 5 minutos de grito. Ao vivo. Foi um sucesso.

Depois disso a gente sempre gritava cinco minutos.

Tipo um descarrego.

Lembrei disso agora.

O Zé é um grande amigo.

Quer dizer, depois que eu resolvi me isolar do mundo, não sei bem ao certo. Mas é que eu tô com alergia de antropólogo. Principalmente de mim.

Sei que eu acabo respondendo coisas nada a ver, mas você resolveu fazer essas perguntas que são tão afetivas pra mim, e aí aproveito meu momento de tormenta e descarrego um monte de coisas que não têm nada a ver.

Sinto muito.

Na verdade eu nem sinto.

Depois que eu respondo seus e-mails eu me sinto leve como uma pluma.

Uhuuuuu.

Fui voar.

18/12/13 - Guile:

Bom voo!

...ah, tudo bem. Eu também tenho esse costume de gritar no rádio. Eu fazia programas experimentais na rádio Muda. Mas também gostava de berrar quando tinha alguma visita no estúdio que estava muito tímida para pegar no microfone. Geralmente depois de ver um berro do 'loucutor' a pessoa acabava se soltando. Ainda faço isso nas oficinas de rádio livre da Xibé, especialmente quando estou acompanhado de crianças.

Fiquei meditando sobre as suas frases dizendo que inicialmente "a dimensão do que era uma rádio ainda era muito infantil e bastante romântica", "é que não existia isso de refletir o que acontecia, acontecia e pronto, entendeu?" e "mas é que eu tô com alergia de antropólogo. Principalmente de mim." É como se o seu trabalho de pesquisa e suas relações no campo antropológico estivessem te sufocando.

Por outro lado, você está se expressando nesta entrevista com outro antropólogo das rádios livres com a irreverência que costumava acontecer no programa Fritando a Couve. Você disse sobre esta entrevista que "aí aproveito meu momento de tormenta e descarrego um monte de coisas que não tem nada a ver". Parece uma inversão em relação à situação expressa nas frases anteriores... a nossa conversa 'antropológica' está se transformando no grito de cinco minutos do programa Fritando a Couve!

É por aí? Tá quente ou está frio?

Você resolveu pesquisar as rádios livres logo após entrar na rádio, ou foi mais tarde? Como foi que isso aconteceu?

19/12/13 - Flora:

Uau.

(...)

Eu comecei a pesquisar rádio depois que entrei na Radiola. Na verdade, eu queria tirar um sarro na disciplina intitulada de Antropologia Simétrica, e fiz um estudo tipo preliminar se Rádio Livre derrubava avião. Era tão óbvio pra mim que não tinha nada a ver, que eu me surpreendi em ver tanta gente falando que derrubava e que um avião poderia cair sobre nossas pobres cabeças. Aí eu falei pro Eduardo Vargas: se esse trabalho ficar bom, você topa me orientar na monografia depois que eu voltar de Montevidéu? Aí ele topou. O resto é o resto.

19/12/13 - Guile:

Esse motivo para começar uma pesquisa é o mais legal que eu já ouvi: para tirar um sarro! rsrsrsrs

:)

20/12/13 - Guile:

Como foi pra você ser ao mesmo tempo voluntária e pesquisadora do
coletivo da Radiola?

29/12/13 - Flora:

No início eu só era da rádio. Depois que eu comecei a pesquisar a rádio, nada mudou na verdade. Eu pensava: vou viver isso e depois eu me viro, depois eu me afasto, depois blá blá blá. Não deu muito certo, porque a minha dissertação é, de fato, um pouco militante. Mas seria demais pra mim estar na rádio e simplesmente ter o papel do/a pesquisador/a, ou do/a observador/a participante, ou sei lá de qualquer outro método antropológico de merda.

Se você for utilizar algum trecho disso, pode modificar o "merda" por "plausível" ou também pelo que você quiser.

4/1/14 - Guile:

Nada contra o termo "merda". Até no "Elementos para uma teoria dos meios de comunicação" de Enzensberger podemos encontrar essa palavra rsrsrs.

Os/as zapatistas/as costumam brincar com o sentido da palavra "derrota", dizendo que foram derrotados/as pelos povos indígenas e, depois, pela sociedade civil, pois passaram a construir uma luta subordinada a eles. Então suas "derrotas" foram suas "vitórias". Você acha que o fato do distanciamento metodológico "não ter dado muito certo" poderia ter sido, paradoxalmente, algo que deu certo em sua pesquisa?

O que me faz pensar nisso é a sua pesquisa de campo, que facilitou a sua ida à rádio Muda e o contato com pessoas que ajudaram a iniciar o Rizoma de Rádios Livres. Lendo a sua dissertação fiquei com a impressão de que essa experiência ampliou a sua rede de amizades e a sua experiência militante, e que se você fosse apenas uma pesquisadora não teria conseguido descrever tão bem o olhar dessas pessoas sobre o movimento que estavam inventando.

Você poderia fazer um pequeno balanço sobre esta sua experiência de pesquisa de campo engajada?

7/1/14 - Flora:

Você ficou muito tempo no México?

Foi seu mestrado, não foi?! Lembro do Barbi ter falado sobre isso…

[um amigo antropólogo em comum]

Quero ler.

O pequeno balanço sobre a pesquisa engajada já vem, parece um título de livro. É que eu não sei bem como responder isso.

8/1/14 - Guile:

Fiquei 3 meses no México.

Na época eu também tinha essa preocupação com o "distanciamento". Hoje eu acho que essa postura foi a principal responsável pelo enorme sentimento de culpa e até uma certa depressão e impotência que eu sentia com relação a Chiapas. Só depois de terminar a dissertação foi que me assumi totalmente como alguém que tinha sido convertido ao zapatismo. Atualmente me assumo como pesquisador engajado mesmo, e me sinto bem melhor assim.

Mande-me o seu endereço que vou te enviar um exemplar do livro!

Obrigado pela paciência com esse tópico. Acho essa reflexão super importante, pois há uma quantidade enorme de monografias, dissertações e teses engajadas sendo feitas e ainda refletimos pouco sobre isso.

8/1/14 - Flora:

Pois é Gui, vou te contar algumas coisas que me vieram agora.

Quando eu fui pra Campinas, no primeiro dia eu fui direto pra Muda, que ainda estava fechada. Fiquei deitada na grama, esperando o Almeida. Enquanto isso eu ficava com a máquina fotográfica enquadrando aquela caixa d'água enorme, pensando na vida. Eu não tinha nenhum envolvimento afetivo com a Muda, do tipo que tinha com a Radiola, então eu achava que ia ter outra percepção. Mas era ridículo pensar assim. Eu nem tentei. Eu pego meu caderno de campo hoje e vejo sobre o que eu escrevia… O vento no cabelo num dia que a gente ficou na Muda até tarde, a cachorrinha do Almeida que tinha sido atropelada e a gente indo visitá-la, um gramado enorme em frente à casa dele onde um dia eu fiz ioga com a outra menina que morava com ele… Enfim, sensações que eram de vida mesmo, não de um Márcio Goldman analisando os tambores dos mortos e dos vivos, entende? Eu ficava incomodada com a capacidade do Almeida e ficamos próximos, pra depois simplesmente desconectarmos total. Ficávamos conversando um tempão, principalmente sobre o Saravá e os encontros de rádio, ele estava pilhado sobre rádio digital. Eu enfim não sou outra coisa que não isso e resolvi bancar ser o que dava. Nossa, essa última frase foi emblemática. Pra não dizer confusa.

Então não foi um campo do tipo coleta de informações, eu vivi um campo que foi ótimo em termos de relação e de vida, mas de rádio também. Depois fiquei chateada com o distanciamento do Almeida e vi que eu era gente também.

Mas hoje até acho que era pra ser assim mesmo.

Então me analisando, eu não sou militante. Não como você, por exemplo. Também não sou uma antropóloga do tipo acadêmico de ser. Eu sou uma outra coisa, que eu só descobri nessas idas e vindas do trabalho de campo, e talvez seja por isso que não consigo passar no doutorado: ninguém me entende e eu não entendo ninguém. Mas eu vivi tudo, senti tudo e isso me deixa completa quando penso em vivências.

Mas acho uma merda não me encaixar em nada.

Quando escrevia a dissertação o Eduardo Vargas, meu orientador, dizia: você está fazendo um estudo de "controvérsias" Flora, é preciso foco! Vai ler de novo a Ciência em Ação, o Changer de Societé, vai fazer isso e aquilo… E eu tinha acabado de ter bebê e ficava pensando no ultimo Encontro de Antropologia e Tecnologia: eu achava metade das pessoas fakes, falando de agências dos objetos mil, falando de Simondon e acendendo um cigarro. Era um teatro que eu devia bancar e eu só queria explicar que viver a rádio, ser a rádio, pra mim era a antropologia. É uma antropologia pois não é somente relevante, é um tipo de trabalho que reflete muito sobre o que queremos daqui pra frente.

Então eu escrevi essa dissertação muito nessa onda, contestando tudo e nada, querendo dizer o que eu vivi. Acho que até hoje Eduardo não me perdoou muito, pois a versão final que eu mandei pra ele eu modifiquei depois com todas as firulas que queria. Com desenhos de rádio nas bordas. Com prefácios e baboseiras. Com vazios e infinitos. E a banca adorou, veja só, na minha banca tinha um físico que é sociólogo e foi da Rádio Alice! Ele é italiano e ficou super emocionado, foi tão bom!

[O membro da banca se chama Yurij Castelfranchi. A rádio Alice esteve no ar na Itália entre 1976 e 1977, reabrindo tempos depois e tendo se tornado a mais famosa rádio livre de todos os tempos]

E aí nessa última seleção de doutorado, que eu não passei na entrevista, eles/as me perguntaram por quê estudar a questão de autoria e patentes na modernidade é relevante. Aí eu pensei: Meu Deus, eu vivo num outro mundo mesmo. Eles/as estão certos/as, só eu que acho a iniciativa da Deriva legal, só eu que quero livro mais barato, vida mais barata e com o triplo de qualidade cultural! Só eu que quero a quebra de patente de remédios… Eles/as não se importam, eles/as são estáveis, eles/as não chegam no final do mês no perrengue, não trabalham em 5 pesquisas pra ganhar uns trocados, quem são eles/as mesmo?

[Deriva: editora anarquista fundada em Porto Alegre em 2005 - http://www.deriva.com.br/ ]

E aí rolou uma crise que está foda, e tem tudo a ver com as suas perguntas, apesar de não ser diretamente.

(…)

Deve ter sido tão fantástica sua experiência zapatista, porque você se puniu depois? A gente nunca tá pronto mesmo…

Enfim, acho que não respondi nada.

18/1/14 - Guile:

Olha, eu também acho boa parte do que é a academia horrível, mas você procurando com calma acaba achando um departamento ou um/a orientador/a com quem tenha afinidade e com o/a qual não tenha que se sentir tolhida. Acho que encontrar essa afinidade é fundamental no doutorado, pois os/as professores/as estão procurando pessoas para somar em suas pesquisas, e também porque para aguentar quatro anos é preciso saber bem o que é que se quer.

Ei, acho demais uma pesquisa sobre a Deriva!

Quando voltei de Chiapas o meu então psicoterapeuta disse que eu estava com "neurose de guerra branda". Embora eu não tenha testemunhado a repressão diretamente, estive em Chiapas numa época muito dura, e a maior parte das pessoas com as quais convivi estavam bem mal com isso. Elas também criticavam a postura um tanto quanto parasitária de jornalistas e pesquisadores que iam lá, pegavam as informações que precisavam para se sair bem em suas carreiras e não voltavam mais. Na época o que eu era capaz de conceber como metodologia de pesquisa ainda era bastante fiel à ideia tradicional de "distanciamento". Eu era ativista, mas procurava separar as coisas para conseguir fazer a pesquisa. Mesmo que o resultado da pesquisa fosse servir ao ativismo, procurava separar o processo da pesquisa do processo de luta.

Hoje sinto que essa postura me fez mal, e que me sinto muito melhor pesquisando de maneira engajada. Do ponto de vista da "objetividade" a pesquisa engajada tem inúmeras vantagens e desvantagens que não ficam atrás da pesquisa "distanciada". Por outro lado, a produção do conhecimento não deve ser comprometida apenas com a "objetividade". Importa também saber a quem e a que serve esse conhecimento e, nesse ponto, a contribuição da pesquisa engajada tende a ser muito superior. Historicamente o que se nota é que as pesquisas consideradas "neutras" foram, na maior parte das vezes, benéficas para os interesses e as ideologias dominantes. As pesquisas engajada oferecem possibilidades alternativas, sobretudo quando os seus propósitos e metodologias são construídas com a participação dos grupos sociais que se espera beneficiar.

O meu objetivo ao pesquisar o zapatismo era aprender com a sabedoria de luta dos indígenas mexicanos e repassar isso para os/as militantes brasileiros/as. Isso está na estrutura da tese. A metodologia do levantamento de dados, porém, foi bastante tradicional na medida em que me assumi como pesquisador que mergulha em busca do registro de informações para em seguida analisar o material com um olhar distanciado. Depois do campo, e na medida em que lia os livros e redigia a dissertação, fui cada vez mais me assumindo como zapatista e procurando fazer do meu trabalho como pesquisador algo útil para o processo de luta internacional de solidariedade com os/as indígenas mexicanos/as e de construção de novas lutas autonomistas. O zapatismo teve grande influência nessa mudança de postura, pois nele a informação e a comunicação são centrais tanto para barrar a repressão como na invenção da autonomia e das redes de comunicação e solidariedade.

Atualmente procuro sempre combinar pesquisas de campo com ações solidárias, seja como ativista, seja através de projetos de extensão. Com isso, nunca mais eu me puni com sentimentos de culpa!

Olha, acabo de ajudar a publicar um editorial no CMI que tem tudo a ver com essa discussão:

"Pedrada na vitrine da ciência: voluntário publica livro sobre o CMI-Brasil"
http://prod.midiaindependente.org/pt/blue/2014/01/528167.shtml

Na sua opinião, quais são as questões mais importantes que você aborda
na sua dissertação?

O tratamento que você dá a essas questões segue alguma estratégia política, intelectual ou pessoal?

20/1/14 - Flora:

Quer ser meu orientador?

21/1/14 - Guile:

Poxa, se eu pudesse, adoraria! Colocaríamos em prática a ideia de um coletivo de pesquisa libertário. Se bem que para isso não precisamos de "doutorados" rsrsrs

21/1/14 - Flora:

Acho que a questão mais importante é como as rádios vivem, morrem e nascem. Um pouco da ótica do rizoma mesmo, pode fechar uma aqui mas vai abrir outra lá, e quem passa por uma rádio livre não consegue viver inerte. Sei lá, acho que nesse sentido o que é mais importante é mostrar que esses movimentos ditos "marginais" têm uma puta potencialidade de transformação, no sentido mais piegas do termo mesmo.

Uma estratégia muito mais pessoal e política. "Intelectual", sei lá, não devo ter uma trajetória, consigo mesclar bem autores/as contraditórios/as porque vejo eles/as como ferramenta, e não como deuses/as epistemológicos/as. É pessoal porque só consigo escrever coisas sobre as quais vivi, e se isso se dá dentro da academia, a academia tem que me aceitar. Ultimamente, não estão me aceitando (começo da ladainha). Talvez eu deva considerar uma estratégia intelectual enquanto sobrevivência acadêmica, mas não me iludo muito com isso. Acho que movimentos insurgentes - principalmente - não dá pra serem "cartografados" no sentido latouriano. Precisam ser vividos, etnografados, um pouco no sentido geertziano de descrição densa. E política pra mim, bem, vai também um pouco no sentido deleuziano de que tudo é política: de fato, não dá pra fazer trabalho de campo sendo a-político. A não ser que você vá fazer etnografia de laboratório (há!). É pessoal, é claro. Precisa de ser pessoal. E é bem complicado também, mas aí voltamos naquela coisa de antes.

E também não penso muito em estratégias: por isso te digo que não sou engajada, mas insurgente. Lógico que uma pesquisa relevante tem que contribuir com o/a pesquisado/a, é óbvio. E se não for assim… fica um pouco sem sentido.

Mas ainda preciso de aprender. Ainda considero uma mudança drástica.

Resolvi fazer um concurso no Pará, mas se passar não vou morar junto dos tilelês de Alter do Chão. Brincadeira. Quero ficar mais perto de Vanessa e sair um pouco.

[Tilelês de Alter do Chão são os etnólogos que criam os filhos pelados na beira da praia. Vanessa é uma amiga que a entrevistada fez em Montevidéu.]

Já saí do assunto, mas tenho certeza que você está tendo respostas muito mais simples que se fosse eu ao vivo.

O que pode ser um coletivo de pesquisa libertário?

26/1/14 - Guile:

Eu também não sei. Em 2012 tentei criar um "coletivo libertário" na universidade, que tinha até uma proposta de carta com princípios, objetivos, metodologia, etc. Comecei a dizer que só orientaria estudantes que quisessem participar dele, embora também fosse aberto a pessoas não matriculadas na universidade, etc. Não aceitaria mais orientar alunos/as através da hierarquia da instituição. No coletivo seria trabalhada a horizontalidade - todos/as orientam todos/as - e o compromisso social. Foi um fracasso rápido. Todos/as alunos/as elogiaram muito a proposta e os primeiros meses de atividades, mas um/a a um/a foram me abandonando, alegando falta de tempo ou cobrando, na prática, a volta da relação tradicional orientador-orientando/a. Em 2013 fiz o grosso da minha pesquisa de campo sobre a rádio Xibé, e foi aí que eu me dei conta de que o coletivo de pesquisa libertário que tinha dado certo e ainda estava funcionando bem era esse coletivo invisível, sem fronteiras e sem uma carta de princípios que foram e são as relações de pesquisa que têm sido trabalhadas em torno da experiência da Xibé ao menos desde 2006. Agora estou desejando incluir isso na redação da tese. Se vou conseguir, não sei...

Como você explicaria para um pesquisador "engajado" o que é ser uma
"insurgente"?

Como tem sido ser "insurgente" em sua experiência de pesquisa?

27/1/14 - Flora:

Engraçado você falando sobre o coletivo libertário e a Xibé. Porque os coletivos são impossíveis mesmo, eles seguem um fluxo indeterminado. Tipo um corpo sem órgãos (hahaha, não me contive, adoro citar uns conceitos deleuzianos incompreensíveis).

Agora essas duas perguntas tão foda heim. Agora fiquei apertada e preciso de pensar na minha droga de insurgência.

Te falo em breve.

16/2/14 - Flora:

Esse final de semana viajamos para uma cidadezinha aqui perto, que um amigo nosso tem uma roça. Chegando lá, eu fiquei só pensando no que eu queria com o termo insurgência. Não descobri.

16/2/14 - Guile:

Gostaria de perguntar alguma coisa sobre relações de gênero, mas não sei bem como entrar nesse assunto. Algo como a identidade de gênero e suas relações com a participação na Radiola e também com a pesquisa. Você gostaria de falar algo sobre isso?

16/2/14 - Flora:

Bom Gui, eu não sou feminista, digo, não no sentido Donna Haraway e, na verdade, em nenhum sentido. Tipo tenho a coisa da "família clássica", marido, filho e cachorro, por exemplo, e sempre reproduzi um pouco isso. Então nunca me analisei no sentido feminista, nem dentro da Radiola, nem no trabalho de campo, enfim, em nenhum âmbito desses aí - parti sempre de um pressuposto horizontal mesmo.

Sei lá, você tem alguma pergunta específica que me ajude a pensar nisso?

16/2/14 - Guile:

Você poderia falar um pouco sobre a diferença (ou semelhança) que fez ter sido mulher na Radiola e na pesquisa?

17/3/14 - Guile:

Oi Flora. Bora pular essa pergunta sobre gênero então?

Com a experiência que você tem agora, quais recomendações daria
ao movimento de rádios livres?

18/3/14 - Flora:

Recomendações?

Eu?

Hahaha, quem sou eu pra dar algum tipo de recomendação a um movimento tão insurgente e rizomático…

Mas se é pra te responder, acho que a única coisa que eu recomendaria é uma aceitação um pouco mais ampla, um movimento que não seja 80% surgido de dentro ou por meio de universitários, se é que me entende… Que os movimentos de RL fossem mais Xibé e menos Muda. Pronto, falei.

19/3/14 - Guile:

E para futuros pesquisadores de rádios livres? Há temas ou questões que você sente que poderiam ser mais dialogadas? Você teria sugestões sobre como trabalhar essas questões?

19/3/14 - Flora:

Olha Gui, acho que não existe conselho, fico numa posição que me incomoda ao ter que "dar" algum tipo de relato baseado na minha experiência. O que eu posso dizer, sem ser muito clichê, é que você deixe se afetar pelo que é rádio livre, ou seja, aceite esse fluxo de intensidades sem nunca se resignar, entende, bem Favret-Saada mesmo.

[Flora se refere ao texto "Ser afetado" da antropóloga, que tem tradução publicada em Cadernos de Campo número 13]

Sobre os diálogos, ainda acho que existem poucas interlocuções, e como eu te disse, o movimento ainda é um pouco "elitizado" no sentido de ser sobretudo universitário, a não ser pelo que percebo da Xibé, pelos e-mails do grupo. Enfim, não tenho sugestão, não sei como começar esse diálogo com comunidades outras, como disse. É uma posição bastante confortável, eu sei, mas nunca me senti interlocutora do movimento, mas uma ativista - naquele sentido de insurgência, que eu não soube te responder também.

Você está fazendo essas entrevistas com alguém que ainda está no movimento de RL sem ser da Xibé? Tenho uma certa curiosidade…

19/3/14 - Guile:

Sim, muita gente. Da última vez que estive em Campinas gravei longos relatos da Prímula e do Subrádio da Muda. Outros/as é por e-mail mesmo, o que é super precário mas até que tem sido legal.

Mas pesquisadora de rádio livre [em pós-graduação] só tem você e a Dey [Cristiane Andriotti], que eu entrevistei em 2004 como CMI-Campinas, na época em que eu tinha acabado de me mudar pra Tefé. Profético, não?

Quer comparar agora? A estrutura das perguntas é mais ou menos a mesma, a não ser pelo fato de que desta vez você também perguntou e eu também respondi!

http://www.radiolivre.org/node/193

19/3/14 - Flora:

Essa sua pergunta da estratégia intelectual mata a gente, viu.

19/3/14 - Flora:

Sabe que lendo a entrevista dela me deu até vontade de fazer rádio livre outra vez.

19/3/14 - Guile:

Rsrs

Bora! :)

[A dissertação de Flora Gonçalves pode ser baixada aqui: https://www.academia.edu/5073856/Universidade_Federal_de_Minas_Gerais_Ra...

Baixe também a dissertação de Cristiane Dias Andriotti, "O movimento das rádios livres e comunitárias e a democratização dos meios de comunicação no Brasil", defendida na Unicamp em abril de 2004. A autora participou da rádio Muda de 1993 a 2004: http://www.midiaindependente.org/pt/blue//2004/05/281592.shtml ]

A insurgência de Flora Gonçalves entre as rádios livres e as antropologias - uma entrevista dialógica