Entrevista com autora de dissertação sobre rádios livres e comunitárias

Entrevista realizada por e-mail com Dey Andri, autora da dissertação “O MOVIMENTO DAS RÁDIOS LIVRES E COMUNITÁRIAS E A DEMOCRATIZAÇÃO DOS MEIOS DE COMUNICAÇÃO NO BRASIL". Além de pesquisadora, ela participou da rádio Muda de 1993 a 2004.

CMI: Como foi sua entrada na rádio Muda?

Dey Andri: Ingressei na rádio muda em março de 1993. Me lembro de estar sentada na cantina do IFCH quando vi o Paulão passar com uma pilha de discos de vinil debaixo dos braços. Perguntei aonde ele ia com aqueles vinis e ele me respondeu: “Pra Rádio Muda.” “Rádio Muda?”, perguntei, então ele me contou que era uma rádio livre dos estudantes da Unicamp . Perguntei se qualquer estudante poderia fazer um programa lá e com quem eu tinha que falar. Ele então explicou que não precisava falar com ninguém, era só ir até a reunião de segunda feira e pegar um horário. Me lembro de não acreditar que fosse assim tão fácil. Ele me passou as coordenadas da reunião do coletivo (dia/hora/local) que na época aconteciam na sede do DCE e às vezes no Teatro de Arena. Na semana seguinte fui até lá e peguei um horário de segunda feira das 9:00 às 10:00 da manhã. Naqueles tempos a grade da Muda não era tão disputada como é hoje. Mesmo assim, me lembro que este era um dos únicos horários que estavam vagos.

CMI: Como foi mudando, ao longo dos anos, sua experiência pessoal com a rádio Muda?

Dey Andri: Eu desde pequena gostava de brincar que era radialista. Juntava meus discos de vinil, meu pai tinha um aparelho de som com microfone e fones de ouvido e eu inventava locuções, notícias, comerciais, recados e gravava tudo em fitas cassete. Cresci ouvindo o programa Disque e toque da Mirante FM, para onde eu ligava quase todos os dias. Sempre gostei de intervir nas ondas do rádio, mesmo antes de saber que existiam experiências de intervenção como a Muda. Quando entrei nessa rádio não sabia o que eram as rádios livres, nadinha mesmo, achava que só havia uma forma de fazer rádio, a mesma que fazem nas comerciais, com aquela locução rápida, as músicas hits, os créditos logo após... Fiz programas em 93 até o final do primeiro semestre. Eu e a Luciene que fazia o “GA-GA-GA” comigo (esse era o “nome” do nosso programa). Nós só tinhamos uma meia dúzia de discos e algumas fitas cassete, que eram impossíveis de tocar porque o toca-fitas estava sempre quebrado. Daí que no segundo semestre a gente já tinha tocado todos os discos umas cem vezes e como o dinheiro era pouco, nós não pudemos reciclar o acervo e acabamos ficando sem vontade de continuar com o programa. Fiquei fora da Muda até 1996. Nesse meio tempo eu visitava ocasionalmente alguns programas de colegas, estava “antenada” com a rádio até 95, quando roubaram o transmissor. Ouvindo esses programas comecei a conhecer a produção cultural que estava fora do mercado, tanto daqueles artistas que já tinham feito sucesso no passado e que haviam sido “esquecidos”, quanto daqueles que jamais tiveram um espaço dentro da mídia comercial. Descobri um universo completamente novo. Veja bem, eu sou de São João da Boa Vista, na minha infância só existiam duas rádios em operação na cidade, uma AM ( a Piratininga), que só tocava música brega e sertaneja e uma FM (a Mirante), que ainda não tinha vendido sua programação pra Transamérica (acho que é ela quem produz a programação hoje, não tenho certeza) e que só tocava música comercial. Os hits por sinal, sempre chegavam em São João com um certo “atraso” em relação às paradas de sucesso das rádios paulistanas, hoje isso não acontece mais. Quando ouvi No Quarter do Led Zeppelin pela primeira vez, ou o Sgt. Pepper’s dos Beatles eu já estava na faculdade lendo Karl Marx, Georg Luckács, Adorno, Walter Benjamin entre tantos outros. Até então eu desconhecia por completo que pudesse haver tantas músicas maravilhosas. Por que elas não tocavam mais no rádio? Comecei a refletir. Compreendia do ponto de vista capitalista que é necessário modernizar, reciclar, produzir, mas não entendia por que o rádio comercial não dava espaço para aqueles que transformaram o pop, o jazz, o samba e tantos outros ritmos em arte. Aprendi a ouvir e a reconhecer um produto legítimo da inteligência e criatividade humana: uma cópia. Descobri inclusive que podem existem muitas cópias que são até (raramente e apenas raramente) mais agradáveis que os originais, mas mesmo essas estão fora da mídia. Comecei a me perguntar o que vem primeiro, o ovo ou a galinha? A mídia faz os gostos ou os gostos fazem a mídia? Eu estava fazendo graduação em História e as músicas do passado entravam para o rol da memória esquecida. “Um país sem memória é um país sem História”, essa máxima também serve pra arte. A arte também tem memória e história e quando comecei a comparar a produção musical de um período mais rudimentar da indústria cultural, quando ela ainda investia na arte, com o É o tchan!, o Tiririca, Back Street Boys, Spice Girls, dentre tantos outros lixos atômicos, pirei. Comecei a refletir até que ponto devemos ser escravos da velocidade, da moda, do consumo, do sistemão capitalista. Descobri também que nada é tão bom quanto o artigo original que é sempre único, diferente do reciclado com aparência de novo; descobri o que é obra do talento, inspiração, transpiração, emoção, teimosia, em suma trabalho artístico verdadeiro. Boa música por favor, mas não os enlatados ou reciclados de batatinhas-que-quando-nascem-se-esparramam-pelo-chão como praga tomando conta do mercado...

Isso tudo acabou se transformando numa vontade louca de voltar a fazer programas. Comecei a anotar os títulos de LP’s que eu tinha ouvido e que fizeram parte da minha revolução interior. Nesta época os CD’s estavam começando a se popularizar e muita gente, entrando na onda do consumo de uma nova tecnologia, se desfez dos antigos vinis por bagatelas. Comecei a rodar os sebos, comprei minha coleção do Led por dez reais. Na época não era real ainda, mas me lembro que o valor era mais ou menos equivalente. Ganhei dois LP’s dos Mutantes, que hoje são vendidos por 100, 150 reais no mercado de colecionadores. Raridades que o mercado de CD’s só foi se preocupar em relançar no ano passado, algumas que nem foram relançadas ainda. Eu já sabia que a qualidade sonora do CD pode ser superior, mas a qualidade material do plástico é incomparavelmente inferior à do vinil... o CD é o verdadeiro “ouro de tolo”. Fui aumentando meu acervo até ter o suficiente para iniciar uma nova fase da minha “carreira” de radioamante.

CMI: Como foi esta nova fase? Como eram seus programas?

Dey Andri: Nesta segunda fase, já com alguma reflexão acerca do papel da rádio livre, do papel do mercado como regulador do gosto, da produção artística, eu privilegiava os artistas “malditos”, ou seja, aqueles que não tocavam mais ou que tocavam pouco nas comerciais. Meu acervo estava começando a ir pra outros caminhos além do rock’n’roll. Tocava músicas antigas do Jorge Ben (esse eu resgatei do acervo do meu pai), do Chico Buarque, dos tropicalistas, mas o “Medicine Leaf, um plano pra uma vida mais saudável” (o nome desse novo programa) era basicamente musical e estava no meio de um processo de transição. Às vezes eu lia notícias que me chamavam atenção e fazia comentários, às vezes levava convidados pra tocar ao vivo no programa, mas ainda me sentia tímida pra experimentar, ousar mais. Aos poucos fui ficando mais segura e paralelamente aos programas eu comecei a me engajar no coletivo da rádio, a buscar parcerias para projetos que eu acalentava como: realizar eventos, conseguir apoio financeiro para as reformas e manutenções técnicas necessárias. Depois do roubo do transmissor a rádio ficou praticamente muda! Ganhamos um ferro velho que transmitia a 2 watts de potência, às vezes 3, às vezes nem isso em freqüências flutuantes entre 106,3 a 106,7 que ninguém conseguia sintonizar direito. A Muda na época ficou conhecida através do adesivo da caveira e um 106.X embaixo, o símbolo de uma coisa morta e enterrada como indigente. Era um horror! O microfone, só pra ter uma idéia, tinha sido feito dentro de um tubo de desodorante e ficava preso a um pedestal de cabo de vassoura. Muitas vezes só ele funcionava.

No coletivo dessa fase haviam pessoas muito interessantes, inteligentes, mas que não eram muito práticas. Eu estou sendo bastante delicada, mas gostaria de dizer que era também um “clube do Bolinha”. Nesta fase tinham só duas mulheres no meio de uns 30 marmanjos. Eu e a Fran. A Fran teve uma idéia genial e que na minha opinião foi um dos pontos altos daquele período. Ela lançou a campanha “Muda procura ‘mudas’”. Logo tivemos o ingresso da Cibele, depois veio a Dani e aí nós quebramos o monopólio machista ali dentro. Hoje somos muitas. Nos engajamos pra convencer a comunidade de que a rádio era importante e que para ela existir era necessário haver um suporte técnico, bons equipamentos, dinheiro pra manutenção e conseguimos uma reunião entre mudeiros e representantes de Centros Acadêmicos. Geramos um mal estar danado ali dentro, porque éramos mulheres que agiam com firmeza em meio a muitos homens. Foi a força das “mudas” que contagiou os “mudos” e não tenho medo de dizer isso. Acho que o sentimento e a vontade de fazer alguma coisa pra rádio voltar a funcionar existia em todos nós, mas as mulheres desempenharam um papel muito importante neste período de crise e desânimo geral. Fico feliz hoje de ver que a rádio ganhou autonomia se levantando progressivamente, através da atuação de algumas pessoas em nome de algo coletivo, ganhando novas adesões importantes, de pessoas que também querem que o projeto dê certo. Meu programa foi mudando aos poucos em conseqüência dessas atividades todas. Em 97 fiquei grávida e isso mudou minha vida. Meu programa se transformou no Nave Mãe, meu projeto mais ambicioso. Com ele viajei por várias galáxias em tempos, horários e estilos diferentes, fiz experimentação radiofônica, aprendi a mixar músicas diferentes, discotequei em casas noturnas por dois anos, fiz programas de entrevistas, fiz denúncia, fiz programas temáticos (o “Bom pra Cachorro” foi o de maior audiência até hoje), fiz radionovela (tosca, mas rolou um seriado marcial...), trabalhei ruídos sonoros, fiz programas feministas e femininos, programas histórico-jornalísticos (como o especial “Ditadura Nunca Mais”, que eu considero ter sido o melhor programa que eu já fiz), programas de leituras de grandes autores da literatura, agilizei programas coletivos, escrevi artigos, ajudei a organizar um manifesto (O Prospecto 106, X), dei milhares de opiniões, briguei, fiz as pazes, fiz um pouco de tudo. Atualmente estou reformulando minhas idéias, meu programa está indo na base do improviso. Tenho trabalhado junto com a Vanis que é uma colega da turma de 93 e os temas femininos são, eu acho, o grande barato atualmente. Eu e ela fizemos alguns programas legais no ano passado, fizemos o especial sobre as obras de Neil Gaiman e Alan Moore, sobre a história do “vampirismo”. Eu queria poder ter mais tempo (e dinheiro) pra me dedicar exclusivamente ao programa, mas não dá pra dar dedicação exclusiva só ao trabalho voluntário.

CMI: Quais são os acontecimentos mais emocionantes de que você se lembra?

Dey Andri:Eu me lembro de muitas coisas boas e outras nem tão boas que aconteceram no estúdio e nas reuniões do coletivo. Lembro romanticamente de quando a Muda era só um bebê e a precariedade dos equipamentos fazia com que as pessoas não a levassem muito a sério, como o episódio do roubo do transmissor que foi uma grande decepção pra todo mundo. Lembro de ter visto ao menos uma fase se completar. Espero poder ver uma segunda fase da história da rádio encerrar seu ciclo. Acho que as melhores lembranças são dos muitos amigos que fiz nos sucessivos coletivos pelos quais eu passei. Ali nas reuniões eu vivenciei o que é política e democracia pela primeira vez na vida. Um momento emocionante foi quando me dei conta de que conceitos como democracia e política não se definem em palavras, eles se experimentam no cotidiano da vida e nós nunca deixamos de aprender e apreender sobre o que são e o que não são, só nunca chegamos a um consenso sobre isso...

A Muda é uma escola de cultura, comunicação, experimentação, política, lazer, esporte, poder, mobilização, etc, etc, etc, e eu sou apaixonada por ela e agir por ela é uma tarefa que exige bastante. Fiquei, por exemplo, feliz com a participação dela no Fórum Social Mundial. Participei diretamente só na terceira edição, aprendi muito e voltei de lá exausta, doente mesmo, mas foi uma vitória frente ao que encontramos lá e creio que foi também um ponto alto na minha “carreira”. Pude sentir como as pessoas que fazem rádio pelo Brasil afora reagem ao ouvirem e verem como é o trabalho da Muda. Lá nós travamos uma batalha política com o “esquemão” das entidades representativas de rádios comunitárias. Quero que fique claro que eu não tenho nada contra as rádios comunitárias ou contra as pessoas que fazem rádio comunitária, mas no Fórum eu descobri que existem graus de tolerância diferentes entre aqueles que se formam pela “escola comunitária”, por assim dizer e os que se formam pela “escola livre”. Isso dificultou o diálogo, mas nós conseguimos realizar nossos objetivos básicos. Lá eu tomei um “banho” de contatos nacionais e internacionais, com radioamantes do México, da França, dos EUA, do Uruguai. Encontrei coisas pitorescas como a rádio El Honorable Ruido da ciudad del México, de todas as que conheci, ela foi a que mais parecia com a Muda. Não existem muitos lugares onde podemos aprender o que é ser plenamente cidadão, ninguém dá muita bola pra isso que se chama “espaço público”, mas ele existe e a Muda é parte dele. Acho que o Fórum ficou pelo meio do caminho, não chegou a ser um “espaço público” propriamente dito. Foi antes um teatro mais caótico do mundo real, só que reunido ali em torno do objetivo, que é válido, de discutir a revolução. Se você me perguntasse se a Muda vai para o Fórum de novo, eu diria que sou a favor que ela vá, mas não sei se eu iria para lá fazer trabalho de base novamente.

CMI: Como foi sua experiência no movimento de rádios livres?

Dey Andri: Comecei meu engajamento por volta de 96, quando rolou o primeiro seminário de rádios livres (organizado pelos meus colegas mudeiros). Acho que foi ali que “caiu a ficha” do que eu devia fazer. De 93 até então eu tinha construído pra mim uma noção prática do que era uma rádio livre. Essa minha noção era só uma parte do que é fazer rádio livre. Em 96 eu pude ouvir o Leo Tomaz da Rádio Reversão e a Marisa Meliani discutindo que o movimento já tinha acabado, que agora era o fim, que a legalização tinha virado piada de mau gosto, dentre outras coisas... isso me interessou, dei um jeito de afanar as fitas cassete gravadas do encontro e ouvi todas elas, (cheguei a transcrever uma parte e enviar pra lista eletrônica há alguns anos.) Dali eu fui ler. Já tinha lido um bocado de autores paradigmáticos, mas não conhecia muito sobre as ciências da comunicação, nem sobre a história das rádios livres e dos meios de comunicação no Brasil. Fui buscar nessas fontes e descobri que o tema era muito mais complexo do que eu imaginava. Levava as minhas descobertas e as idéias que ia tendo para os meus colegas “mudeiros” onde discutíamos e trocávamos informações. Assim eu fui construindo uma noção um pouco mais sociológica e histórica sobre esse movimento e sempre introduzindo isso nas reuniões. Acho que minha participação no movimento foi através do coletivo onde eu ajudei a fomentar o debate. A minha dissertação é o produto de reflexões e debates sobre o coletivo, sobre a pesquisa histórica e sociológica e tem como um dos objetivos ajudar nessa tarefa.

CMI: Porque você resolveu partir para a pesquisa acadêmica sobre rádios livres?

Dey Andri: Porque como eu disse acima elas são “espaços públicos”, apesar de não parecer, elas são micro-universos, mas com todas as características do macro-universo social. Quanto mais eu pensava nas relações que os meios de comunicação têm com a política, com o mercado, com a cultura, mais eu via na Muda pontos de fuga, outras possibilidades e procurava entender porque emissoras miseráveis como ela, do interior do estado, do país, conseguiam proporcionar o que as outras não conseguiam. Também me perguntava como conseguiam incomodar tanto e tantas pessoas a ponto de gerar tamanha repressão do governo. Queria entender como a desorganização organizada do coletivo da Muda conseguia manter, com direito a alguns tropeços, a rádio no ar. E assim eu fui fuçando como se estivesse num sebo e fui achando coisas...

CMI: Como é ser pesquisadora e objeto da própria pesquisa?

Dey Andri: Essa pergunta por si daria uma tese. É muito difícil. Quando me meti nessa história não sabia do tamanho da coragem que eu ia ter que ter pra concluir o trabalho. Se eu soubesse não sei se teria entrado. Ao mesmo tempo em que pode ser confortável escrever sobre o conhecimento empiricamente adquirido, por outro lado é difícil colocar o coração de lado e ter uma visão estritamente científica, teórica e analítica do assunto. Ao mesmo tempo, você se esforça por fazer ciência, esse esforço produz um resultado e isso transforma sua visão sobre o objeto e aí não é mais a questão de deixar o coração de lado ou não... eu mergulhei numa verdadeira batalha comigo mesma...

Há vantagens e/ou desvantagens em se trabalhar assim? Dey Andri:Há vantagens e desvantagens em ser sujeito-objeto da pesquisa. A vantagem é que eu consegui aliar o estudo, que é o meu trabalho, ao hobby que era a rádio, a pesquisa cultural que eu desenvolvi sendo ouvinte-locutora, à história política que é o meu tema predileto nas ciências, sendo remunerada por uma bolsa e numa das melhores instituições de ensino superior do país. A desvantagem é que o meu envolvimento pessoal com a rádio foi afetado profundamente. Eu tive que me afastar dela por um tempo pra conseguir me concentrar na escrita e na leitura e quando eu voltei, já não conseguia vê-la apenas como uma escola de vivências, um hobby, ou uma necessidade pessoal. Eu já não era mais uma “mudeira”, eu era uma cientista num laboratório, observando uma cultura viva e podendo agir sobre ela, interferir nos processos. Isso é muito poder e lidar com o poder pode ser perigoso pra saúde. Tive que enfrentar vários dilemas pessoais, mas acho que consegui um certo equilíbrio entre a ação e a observação, embora o resultado ainda esteja um bocado longe do ideal científico. Passei a entender mais sobre o jogo político no qual a rádio está inserida e ao mesmo tempo em que, profissionalmente falando isso é bom, por outro lado me fez perder um bom tanto do lado romântico de se fazer rádio livre.

CMI: Na sua opinião, quais são as questões mais importantes que você aborda na sua dissertação?

Dey Andri: A minha dissertação perdeu bastante do foco central, porque eu me propus a realizar um trabalho que tem poucas referências acadêmicas precedentes e escrever para a academia não é a mesma coisa que escrever um livro. Tive que traçar um paralelo entre a história do desenvolvimento do movimento de rádios livres para o movimento de rádios comunitárias, com o desenvolvimento do tema da democratização dos meios de comunicação na política brasileira. Isso porque faltava um trabalho assim e sempre houve muita confusão em torno dessa passagem livre/comunitária. Mas o que eu queria mesmo era fazer a história da rádio Muda e comparar essa experiência com a comunicação comercial, com as rádios comunitárias, com as próprias rádios livres que existem por aí. Queria denunciar a ação da repressão e comprovar a hipótese de que essa repressão é que é ilegal e não as rádios. Queria retratar como fazer rádio livre pode ser uma forma eficiente de experimentar a plena cidadania (pra encurtar o trajeto teórico) e de como isso é importante para uma democracia que está em construção. Acho que essas questões perpassam o meu trabalho, mas dessas foram surgindo outras, mais abstratas, mais complexas e que só puderam ser esboçadas. Creio que completei algumas lacunas que existiam e que agora já podem ser superadas pelas pesquisas futuras e acho que essa é a contribuição do meu trabalho. Por outro lado esse tema é muito atual e às vezes dá saltos espaço-temporais vertiginosos. Muitas coisas que eu escrevi no final do ano passado, por exemplo, já viraram história no movimento esse ano. Ainda vai rolar muita água por debaixo dessa ponte e daqui alguns anos haverá outro pesquisador se enlouquecendo com o tema, aliás, eles já estão ativos por aí...

CMI: O tratamento que você dá a essas questões segue alguma estratégia política e intelectual?

Dey Andri: O tratamento segue duas hipóteses que para quem faz rádio livre ou é engajado no tema da democratização da mídia são como “feijão com arroz”. A de que existe um monopólio comercial de mídia aliado a um pensamento hegemônico/tecnocrata (pra resumir). Essa é a primeira hipótese. A segunda é a de que não existe democracia sob esse modelo de comunicação. Aliás, falando sobre o que eu queria que fosse o meu trabalho, a minha maior ambição seria provar irrefutavelmente essas duas hipóteses e convencer os nossos dirigentes a riscar da Constituição o artigo em que supostamente estaria escrito que deve haver repressão à criatividade humana quando expressa via tecnologias de comunicação. Só que eu não consegui atingir essa meta, simplesmente porque não existe tal artigo. O Governo e a classe empresarial agem de forma autoritária mesmo. Acho que a grande estratégia é falar em favor dessas experiências. Na defesa a banca me acusou de ser militante. Eu sou militante, porém, mesmo que eu não fosse, não haveriam muitas formas de falar contra essas experiências. Existem rádios que se dizem livres ou comunitárias e que na verdade são o que há de pior: “lobos vestidos de cordeiro”, “invasoras no movimento”, enfim, chame como quiser, é fácil identificar as que são assim e contra elas existem milhares de críticas. É possível fazer a crítica ao movimento, à forma como ele lida com os seus dilemas, mas é impossível fazer a crítica ao direito à liberdade de expressão através de meios tecnológicos, que foram inventados pelos seres humanos para o usufruto dos seres humanos. É impossível criticar o direito à igualdade entre os seres humanos e a democracia na comunicação é o exercício desses direitos.

CMI: Com a experiência que você tem agora, quais recomendações estratégicas você daria ao movimento de rádios livres?

Dey Andri: Em primeiro lugar, que se afastem das entidades representativas. Esse papo de entidade representativa é precoce demais. O movimento tem que continuar fomentando o surgimento de novas rádios, a coletividade nessas experiências e a questão: que mídia nós queremos construir? Ao invés de ficar organizando entidades que vão depois organizar as rádios, o movimento deveria buscar soluções mais simples, como por exemplo, criar um fundo de solidariedade às rádios fechadas pela polícia, para que elas possam ser reabertas rapidamente. Isso é uma idéia, mas o principal é manter um certo cinismo com relação à repressão e às estruturas políticas tradicionais. Ele tem que experimentar mais, descobrir sobre si mesmo e isso é que é o verdadeiro ato de resistência política e não essa história de ficar buscando “sarna pra se coçar”, tentando institucionalizar uma coisa que nasceu da revolta contra essa própria instituição. Pasme se eu disser que as minhas recomendações não são minhas, elas estão baseadas no Félix Guattari que falou sobre isso aqui no Brasil em meados dos anos oitenta, faz tempo, mas por incrível que pareça essas recomendações ainda estão valendo, porque o movimento não caminhou neste sentido e por isso deu, tem dado e vai continuar dando muita cabeçada em ponta da faca! O velhinho via longe... mas eu sou otimista, acho que a nova geração de rádios X vai conseguir reverter esse quadro e botar fogo nas ondas do ar de novo e de novo, até quebrar as estruturas e construir uma outra noção de comunicação.

CMI: Que recomendações você daria a quem quer pesquisar as rádios livres?

Dey Andri: Acho que para os futuros pesquisadores existem muitos temas que ficaram em aberto, não só no meu trabalho, mas nos trabalhos que existem por aí e que podem ser explorados. A Marisa escreveu sobre a história romântica do movimento, o Armando Neto escreveu sobre a história jurídica com pinceladas políticas bastante elucidativas, o Masagão e sua turma escreveram relatos históricos importantes para entender o nó político que liga as rádios ao tema da democracia. Eu me aprofundei um pouco mais neste nó, e introduzi a questão estrutural. Acho que seria legal alguém que pensasse nas possibilidades dessa transformação estrutural proposta pelas rádios livres e em como isso afetaria a informação, a cultura, a educação no país. É uma grande burrice do governo e dos empresários tentar reprimir essas experiências. Acho que falta demonstrar com mais produção a questão do porque é uma burrice. Por outro lado, existe também uma outra história (sempre existem outras histórias), que é a do movimento institucional. Eu falo bastante sobre ele, mas eu vejo as coisas do ponto de vista das rádios livres, tem o ponto de vista das rádios comunitárias, que trazem muitas experiências importantes. Também existe um movimento latino-americano de rádios comunitárias que precisa ser melhor pesquisado. E por falar em pesquisa, essas rádios existem por todo o Brasil, mas são poucas as experiências que se projetam para a opinião pública, muita coisa ainda existe para ser exposto, existe um leque muito grande de opções. Você pode tomar as rádios como questão central ou como uma questão periférica, que é só mais um dado no meio de um contexto muito mais amplo. O pesquisador tem que saber bem o que quer nestes casos rizomáticos. Eu acredito na sociologia propositiva. Uma pesquisa não precisa ser apenas pesquisa, pode ser também um projeto político, enfim...

http://brasil.indymedia.org/pt/green/2004/06/283085.shtml

Comments

Entrvista Dey Andri

Cara Dey

De fato vc conhece São João, talvez tenha em sua entrevista se confudido ao dizer que a Mirante FM em certa época passou a transmitir a programação da Rádio Transamérica. Isto nunca aconteceu. Até hoje a Mirante faz programação ao vivo.
Quanto ao Programa Disque Toque ainda existe (21 anos) no mesmo horário e no mesmo formato apresentado por Cesar Gilmar Caslini.
A respeito da programação da época que vc narra talvez haja outro engano, a Mirante tocava sucessos no momento que eram lançadas e fhas back de qualidade.
Na minha opnião, a Mirante FM de São João da Boa Vista, é uma das poucas rádios legalizadas que se antecipou ao tempo popularizando a sua programação, e foi de um pioneirismo impar: 1ª a ter um programa sertanejo classe especial em FM; a 1ª a transmitir jornada esportiva em FM.Este pioneirismo é em termo de Brasil- na época as FMs só tocavam músicas praticamente.
Com todo respeito as demais emissoras de FM, na Mirante não existe e nunca existiu jabá.
Aos 23 anos

gosto da mirante

so do disque tok o programa da tarde e horrivel